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Revista Alma
Foto: Sitah

PREM BABA – O AMOR DISPENSA RÓTULOS

Prem Baba não cabe em rótulos. O paulistano dirige o tradicional Sachcha Dham Ashram, na Índia, está à frente do movimento internacional Awaken Love e lidera um projeto que une espiritualidade e sustentabilidade em Alto Paraíso de Goiás. Ligado ao hinduísmo – ele substituiu o renomado Maharajji à frente da tradicional linhagem Sachcha –, Prem Baba honra a essência de todas as tradições e está mais empenhado em superar que em definir fronteiras religiosas. Ao valorizar o amor e diretrizes como honestidade, autorresponsabilidade, gentileza, dedicação, serviço e beleza, ele se alinha a lideranças como o Dalai Lama e fertiliza o terreno de uma espiritualidade que não separa, mas une, conscientiza e liberta. É sobre o que nos fala nesta entrevista.

 

***

 

RA: O senhor conviveu desde a infância com expressões religiosas e fenômenos típicos do Brasil, como a mediunidade de sua avó e expressões das espiritualidades indígena e afro-brasileira. Como essas experiências enriquecem sua perspectiva de espiritualidade? Com esse histórico, é possível ser uma liderança hindu tradicional?

 

PB: É importante compreender que, mesmo que meu trabalho tenha uma forte influência hindu, eu não me considero um hindu. O conhecimento que transmito é universal; é a essência dos ensinamentos que promovem a libertação da alma. É a essência do cristianismo, do budismo, do taoísmo, do hinduísmo, do islamismo, do judaísmo… Porque a verdade é uma só. O amor é um só. Jesus, Buda, Krishna – não importa o nome – são manifestações através das quais a compaixão divina ganha forma na Terra para nos mostrar o caminho da libertação; liberação do sofrimento.

 

De tempos em tempos, a sabedoria e a compaixão encarnam neste plano para mostrar que é possível superar o medo e transcender a morte. Para ensinar que é possível amar. Sinto que os diversos caminhos que trilhei sem dúvida enriqueceram muito minha jornada e me tornaram o que sou hoje. Essas experiências possibilitaram justamente que meu trabalho se tornasse o que é hoje. Posso dizer que sou um tradutor que decodifica ensinamentos ancestrais para uma linguagem contemporânea. Sinto que meu trabalho é facilitar o acesso à verdade. Foi com esse intuito que criei o movimento Awaken Love, que é a tradução do propósito da linhagem da qual sou herdeiro: “Que Deus desperte em todos os seres”. Deus é amor. Então, que o amor desperte!

 

RA: Como os hindus (e indianos) veem um brasileiro na liderança de uma linhagem tão tradicional? Ser estrangeiro (e brasileiro, em particular) traz algum desafio ou oportunidade extra neste contexto? 

 

PB: Alguns hindus mais tradicionais não gostam de ver um estrangeiro nessa posição. Em certos lugares, considerados sagrados dentro da tradição hindu, não é permitida entrada de “não hindus”, por exemplo. Mas nem todos estão presos a essas regras separatistas. Na verdade, minha experiência tem sido positiva nesse sentido. Durante muitos anos, a Índia tem sido minha segunda morada. Lá sou sempre muito bem recebido e acolhido. No início desse trabalho, quando meu mestre (Maharajji) quis que eu oferecesse satsangs (palestras) no ashram (mosteiro) dele, em Rishikesh; e também mais tarde, quando ele fez sua passagem e eu assumi o comando do ashram, precisei enfrentar alguns desafios. Mas hoje as portas estão abertas. Vejo que, através dessa posição de liderança, tenho tido oportunidades únicas. Estou podendo apoiar e implementar projetos de extrema importância para toda comunidade indiana, quer sejam hindus ou seguidores de outras linhas espirituais.

 

 O conhecimento que transmito é universal; é a essência dos ensinamentos que promovem a libertação da alma.

 

RA: Qual a posição de Maharajji a esse respeito? 

 

PB: Maharajji, ao olhar para mim, não via minha personalidade. Ele não via de onde eu vinha ou onde vivia; ele via minha alma, que é universal. Ele costumava expressar admiração pela minha habilidade de transitar em diferentes universos e isso eu considero uma qualidade que herdei da cultura brasileira. Ele dizia que, nesta fase de nosso trabalho, deveríamos expandir a luz da verdade pelo mundo todo e não somente na Índia, e considerava que eu seria o canal apropriado para realizar essa missão. De qualquer maneira, é importante salientar que não conduzo o ashram sozinho. Minha irmã espiritual, Shantimayi, também discípula do Maharajji, está comigo nessa empreitada, além de haver um comitê de indianos que realiza a parte administrativa.

 

RA: O senhor obteve apoio do governo de Goiás para construir uma cidade dedicada ao autoconhecimento e à promoção dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas em Alto Paraíso. Como surgiu essa iniciativa?

 

PB: A iniciativa tem o objetivo de transformar Alto Paraíso numa cidade referência em sustentabilidade. Isso surgiu quando, há cerca de dois anos, fui porta-voz para a disseminação dos 17 ODS para os buscadores que estavam me visitando na cidade. No momento em que falava sobre as metas, tive essa inspiração. Senti que precisávamos agir, pois muito temos falado e bem pouco temos feito. A proposta é colocar em prática essas ideias e metas numa cidade pequena, mas com grande potencial e abertura para isso. Depois, replicaremos esse modelo em cidades maiores. Tenho chamado esse projeto de “Cidades Conscientes”. Mas, para que esse sonho possa se tornar realidade, precisaremos do engajamento do estado e do município, além do apoio de toda sociedade. O meu papel é fazer essa articulação.

 

Prem Baba em Alto Paraíso

 

RA: Espiritualidade e sustentabilidade têm alguma relação?

 

PB: A relação entre elas é íntima e profunda: uma não existe sem a outra. A situação de calamidade na qual o planeta se encontra, no que diz respeito à sustentabilidade, é justamente devido à negação da realidade espiritual que permeia toda existência. E a degradação do meio ambiente contribui ainda mais para essa negação e para o esquecimento da nossa verdadeira identidade.

 

O ecossistema é uma manifestação divina que possibilita a experiência humana neste plano: se esse sistema entrar em colapso (o que já está acontecendo), a raça humana não poderá realizar seu propósito. Nós seres humanos viemos para a Terra realizar um programa. Cada alma tem um propósito individual que serve a um propósito coletivo, que costumo chamar de propósito maior.

 

Viemos para despertar o amor, que é nossa mais pura essência, mas o que temos feito é justamente o contrário. Inconscientes diante do espírito que habita em todos os seres vivos, não respeitamos nem damos valor à natureza. Destruímos o ecossistema que nos proporciona a vida e com ele também matamos os animais e outros seres dos reinos mineral e vegetal. Precisamos acordar para a realidade de que cada ser vivo tem uma função, um propósito dentro do projeto divino. Cada espécie tem sua relevância no processo de expansão da consciência amorosa. O ser humano, porém, acredita ser mais importante do que os outros seres e não percebe que depende deles para sobreviver. E, a partir dessa ignorância, acaba atrasando o processo evolutivo das outras espécies e reinos. Veja como é profunda essa questão.

 

RA: Lideranças espirituais como o Dalai Lama têm defendido a proposta de uma ética global secular – ou seja: uma abordagem sustentável e universal da ética, acima de diferenças religiosas, culturais e raciais, com base em valores comuns às diversas tradições como, por exemplo, a compaixão (ou o amor). A visão do senhor é semelhante?

 

PB: Sim, minha visão se aproxima disso. Espiritualidade não tem nada a ver com separação, mas sim com unidade e igualdade entre todos. Espiritualidade é sinônimo de união. Através das práticas espirituais, buscamos nos unir com o todo. Tenho falado de uma espiritualidade prática, ou seja, uma espiritualidade sustentável, que possa ser vivida e aplicada na vida cotidiana das pessoas. Vivemos num tempo em que a principal prática espiritual é sustentar o coração aberto enquanto se relaciona com o outro, mesmo quando ele é canal da mais profunda maldade. Nessa abordagem, fatores como religião, raça e condição social são irrelevantes.

 

Espiritualidade não tem nada a ver com separação, mas sim com unidade e igualdade entre todos.

 

RA: A proposta do movimento Awaken Love, criado pelo senhor, é um reflexo disso?

 

PB: A proposta do movimento é facilitar o despertar do amor, que é nossa essência adormecida. Em outras palavras, é acordar nossa grandeza, pois estamos demasiadamente identificados com o eu menor, com a mesquinhez, o egoísmo, o orgulho e a ambição. Costumo dizer que esse é um movimento em direção à união. Não importa qual sua condição social, sua crença religiosa ou seu estilo de vida, se você é um ser humano, o amor que o habita aguarda pelo despertar. O amor quer manifestar seu potencial máximo através dos seus dons e talentos. Qualquer um pode fazer parte desse movimento, pois todos podem ser canais do amor.

 

Todos querem ter paz, alegria e prosperidade. Todos querem ter uma razão para acordar de manhã. Mas a grande maioria não sabe como alcançar esses objetivos e é conduzida pela crença de que a felicidade depende de circunstâncias externas. Mas a verdade é que tudo o que buscamos encontra-se dentro de nós. E isso somente pode ser realizado externamente quando conseguimos nos libertar das nossas contradições internas. A verdade é que estamos onde nos colocamos. O externo é um reflexo do interno. Por isso, buscamos popularizar a meditação, o cultivo do silêncio e de valores espirituais na educação, na política, na arte – em todos os setores da sociedade. Trata-se de uma revolução da consciência.

 

Festival Ilumina: presença de Prem Baba

Prem Baba: “Seja meu amigo.”

 

RA: Que mensagem o senhor deixaria para as pessoas que o admiram e buscam o autoconhecimento e a felicidade nas mais diversas tradições espiritualistas?

 

PB: Você está no caminho certo. O autoconhecimento é o caminho. Através dele você abre espaço interno para ter um vislumbre da verdade – a verdade de quem é você. Não importa qual linha você esteja seguindo, eu rezo para que você encontre as respostas que procura. Se em algum momento você precisar de apoio na jornada, se aproxime. Seja meu amigo.

 

RA: Qual o grande sonho de Prem Baba? O que mais o senhor gostaria de realizar nesta vida?

 

PB: Meu sonho é realizar meu propósito, que é também a missão do meu mestre. Tenho trabalhado para que o amor desperte em todos os seres e para que possamos ser canal desse amor através dos seus dons e talentos. Meu sonho é ver essa revolução amorosa acontecer.

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Gustavo São Thiago
[ Gustavo São Thiago ] Editor

Editor e publisher da Revista Alma, Gustavo São Thiago trabalhou na grande em imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, especialmente na área de cultura. Estudioso autodidata das religiões, o jornalista finaliza sua primeira obra de ficção, o romance “Impermanência”, e medita diariamente.

 









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