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Revista Alma

O ENIGMA DE ABADIÂNIA

 

O encontro foi perfeito. Nem João Deus é um médium tradicional, se é que há médiuns tradicionais, nem a historiadora Maria Helena P. T. Machado é uma acadêmica típica. Com uma sólida carreira na universidade – ela é professora do Departamento de História da USP – e uma inquietação espiritual que a levou de ashrans indianos a cerimônias xamânicas no Novo México, Maria Helena mostrou-se uma observadora privilegiada de um fenômeno difícil de ser explicado e poucas vezes analisado de modo tão abrangente.

 

Na rota da espiritualidade contemporânea

 

“João de Deus – Um Médium no Coração do Brasil” é mais que a simples biografia do “maior curador vivo da atualidade”. É um olhar contextualizado sobre um fenômeno que pôs o Brasil na rota da espiritualidade contemporânea e atrai a imprensa e buscadores espirituais do mundo inteiro. Nomes como a jornalista norte-americana Oprah Winfrey, a artista-plástica sérvia Marina Abramovic e a atriz, também norte-americana, Shirley MacLaine (curada pelo brasileiro de um câncer no estômago) atravessaram oceanos e estradas mal pavimentadas para chegar à pequena cidade de Abadiânia, em Goiás, e ficar frente a frente com o médium.

 

Cirurgiões curadores

 

Para analisar o que ocorre na Casa Dom Inácio de Loyola, onde milhares de atendimentos são realizados mensalmente, Maria Helena extrapola a trajetória de seu biografado e aborda processos que dialogam com ela, como a tradição, tipicamente brasileira, de médiuns cirurgiões.

 

É difícil compreender João de Deus sem ter em mente a trajetória de antecessores como o mineiro Zé Arigó, o pernambucano Edson Queiroz e o goiano Antônio de Oliveira Rios. Médiuns cirurgiões, como João, eles utilizavam a mesma técnica heterodoxa do biografado: intervenções cirúrgicas sem anestesia, assepsia e quase todos os itens da boa prática médica. Um tratamento de choque que evidencia a distância entre as duas medicinas, material e espiritual, e tira o sono de qualquer São Tomé.

 

Trajetória acidentada

 

Heterodoxia parece ser um termo adequado para João de Deus. A formação religiosa e a capacitação mediúnica deste goiano de 75 anos, cujo nome de batismo é João Teixeira de Faria, envolve quase todo panteão brasileiro. Unindo o catolicismo fervoroso da mãe à intuição de raizeiro do pai e às passagens pelo espiritismo e pela umbanda, o médium teve um percurso mediúnico marcado pela inconstância, pela independência – durante anos foi uma espécie de curador peregrino – e pela forte perseguição da classe médica.

 

Chico e Santa Rita de Cássia

 

Mas também por curas extraordinárias e pela intervenção de santos católicos como Nossa Senhora de Fátima ou Santa Rita de Cássia, segundo afirma, além de médiuns mais experientes como Chico Xavier. Em 1993, num momento de grande dúvida, João recebeu um bilhete inesperado do mineiro: “Abadiânia é o abençoado recinto de sua iluminada missão e de sua paz”. O goiano não deixou mais a cidade, que se tornou um roteiro de buscadores espirituais das mais diversas tradições.

 

Um movimento ecumênico de cura

 

O local recebe gente do mundo inteiro. E não só doentes. Ao lado das cadeiras de rodas e muletas, que já fazem parte da paisagem, vemos mochilas e almofadas com etiquetas de ashrans indianos e outros indícios do alcance multirreligioso do local. Gente que recuperou a saúde e gente que jamais se tratou com João de Deus procura a nada turística Abadiânia.

 

A Casa Dom Inácio de Loyola é um hospital espiritual, mas também um templo ecumênico, e esse é um dos aspectos mais interessantes do fenômeno João de Deus. Há algo ocorrendo lá – algo que não se pode ver, mas que muitos parecem sentir – e que tem atraído buscadores do mundo inteiro. Para Maria Helena P. T. Machado, o médium-curador, cujas práticas se conectam a diferentes práticas e tradições brasileiras, alcançou um status que apenas mestres espirituais e gurus orientais haviam atingido anteriormente. Embora não explique nada e não exija nada, apenas faça acontecer.

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Gustavo São Thiago
[ Gustavo São Thiago ] Editor

Editor e publisher da Revista Alma, Gustavo São Thiago trabalhou na grande em imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, especialmente na área de cultura. Estudioso autodidata das religiões, o jornalista finaliza sua primeira obra de ficção, o romance “Impermanência”, e medita diariamente.

 









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