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Revista Alma

DANÇA E TRADIÇÃO

 

Para a coreógrafa baiana G’leu Cambria, dança e espiritualidade se confundem. Neta de Mãe Ilza Mukalê, de um dos mais antigos e tradicionais terreiros da Bahia, ela cresceu em meio às intensas atividades religiosas, culturais e sociais da casa fundada por sua família há 128 anos, na tradição Angola: o Matamba Tombenci Neto, em Ilhéus. Além das atividades religiosas, o terreiro abriga o Grupo de Preservação da Cultura Negra Dilazenze, cujas ramificações incluem um bloco afro, uma banda percussiva, um grupo de samba de roda, um corpo de ballet e o projeto sócio-educacional Batukerê.

 

Tudo gira em torna da família de G’leu, que tem 2 irmãos, mais de 30 primos e 14 tios. Se Mãe Ilza é a referência religiosa, a Praça Dona Roxa, no centro do terreiro, é a referência social e comunitária de todo bairro de Alto da Conquista. “Desde que me entendo por gente é assim: acordar e ir para a praça. É ali que nos reunimos antes e depois dos ensaios, das aulas na comunidade e das festas e obrigações do Candomblé. Minha avó, que adora ver o povo reunido, fica mandando quitutes da cozinha”, diz a coreógrafa, que estava na primeira apresentação do Dilazenze, há exatos 30 anos.

 

De Ilhéus para Middletown

 

Com apenas sete, G’leu se apresentou na casa do ex-governador de Ilhéus acompanhada por um dos tios. Não parou mais. Foi coreógrafa do Dilazenze por dez anos, montou diversos espetáculos, agregou elementos contemporâneos à sua dança, casou-se com um etnógrafo da música, o ítalo-brasileiro Vincenzo Cambria, e trocou a Bahia pelos Estados Unidos em 2005, após uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro.

 

A cidade de Middletown, onde morou por cinco anos, foi a anti-Ilhéus.

 

“Ser negra e casada com um branco era imperdoável para eles. Éramos insultados nas ruas e o risco de agressão física era real“, recorda a coreógrafa. “Mas com o tempo fizemos uma rede de amigos. Estudei a dança africana e dei cursos e workshops de afro-brasileira no Trinity College (uma universidade).”

 

Corpo sagrado

 

A experiência foi fundamental. “Minhas aulas eram traduzidas, mas havia essa linguagem mais sutil, da troca, do olhar e dos sinais do próprio corpo”, explica a coreógrafa, que tem na tradição e na simbologia dos Inquices (como os Orixás são chamados na tradição Angola) o fundamento de sua dança. “O corpo é sagrado para o Candomblé”, explica G’leu. “É por ele que iniciamos o caminho de autoconhecimento e identificamos nosso papel no cosmo e na sociedade. A música também é fundamental neste processo e no modo como vivenciamos a espiritualidade.”

 

 

G’leu Cambria e os integrantes do Bamboyá      Maria Navarro

 

Por isso ela vive cercada de bons músicos. Sobretudo percussionistas. Em suas aulas no Rio de Janeiro, para onde retornou há quatro anos, G’leu é acompanhada por Mayombe Massi, Pedro Conte e pelo cubano René Ferrez, sobrinho-neto do cantor Ibrahin Ferrez, do Buena Vista Social Clube. Diversidade é a palavra certa para definir suas turmas. Entre seus alunos há estrangeiros, estudiosos da cultura negra e jovens com ou sem qualquer relação com o Candomblé. Foi com alguns deles – onze, mais precisamente – que ela formou a Companhia de Dança Afro Bamboyá. O nome funde duas denominações do Inquice de G’leu e da avó, que é coincidentemente o mesmo:  Matamba. Ou Iansã – a senhora dos ventos, raios e das tempestades –, como é mais conhecida no Brasil.

 


 

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