Menu
Revista Alma

RETORNO ÀS TRADIÇÕES

 

Criada na Amazônia, Athamis Bárbara rodou o Brasil, a América Latina e a Europa a procura de algo que só encontrou aos 33 anos, no sul do Canadá: sua própria alma nativa. É curioso que uma neta de índios Mura, brasileiríssimos, tenha se tornado uma referência numa tradição originária da América do Norte, e tão pouco conhecida entre nós, como a Ojibway. Mas é isso que torna sua história tão fascinante. Uma história que começou pelo avesso – ou melhor: pela negação.

 

“Apesar de meus traços e da origem indígena, aprendi a ver essa herança como algo menor e fui educada desde cedo para rejeitá-la”, conta Athamis. “Frequentei escola católica, estudei línguas estrangeiras, piano e fiz tudo que uma branca europeia faria. Até pensei em ser freira”, revela, mostrando a precoce vocação espiritual e também social.

 

Educação de adultos

 

Foi a social que a pegou primeiro. Formada em Pedagogia, Athamis empreendeu uma longa viagem pela América Latina, e em seguida pela Europa, estudando, pesquisando e trabalhando com educação de adultos, um tema que a mobiliza até hoje. Tinha pouco mais de vinte anos quando encontrou o belga Jan Daniëls, um parceiro de ideais, e também pedagogo, com quem se uniu em 1988 e tem dois filhos, Tiago e Thaiani. Mas aos 30 anos, em seu melhor momento, Athamis viu o chão lhe faltar.

 

“Era uma dor profunda”, tenta explicar. “Não me adaptava nem à Bélgica nem ao Brasil nem a lugar nenhum. De onde eu era, afinal de contas?”

 

Van Raalte e os Ojibway

 

Em busca de respostas, Athamis recorreu à Psicologia Transpessoal (que lida com estados alterados de consciência) e conheceu a canadense Kelly Van Raalte, uma referência nesta abordagem com estudos importantes sobre a cultura Ojibway. A identificação entre as duas foi imediata. Quando Van Raalte a convidou para conhecer as reservas Ojibway em Ontário, no sul do Canadá, Athamis nem pestajou.

 

“Foi um choque”, recorda-se. “Estava em outro ponto do planeta, entre desconhecidos, e me sentia totalmente em casa.” Ao contrário do que aprendera na infância, seus traços indígenas lhe abriram todas as portas na reserva canadense. Aceita como igual pelos Ojibway – tornou-se a “irmã do sul” –, Athamis penetrou a intimidade daquela cultura e participou de cerimônias e práticas restritas, sempre orientada e acompanhada por mulheres. “Foi um encontro de almas”, ela define.

 

Longo aprendizado

 

Com o passar do tempo e retornos constantes, Athamis recebeu uma rara honraria: ganhou um nome espiritual – Mulher Beija-flor do Clã do Pássaro Trovão –, numa cerimônia específica daquela tradição. Foram 18 anos de treinamento com os Ojibway e com Van Raalte, que se tornou sua mentora. “Eu ia três vezes por ano ao Canadá e ela vinha ao menos duas ao Brasil”, conta a pedagoga, que uniu as vocações de xamã e de educadora ao criar um espaço pioneiro na difusão e preservação das culturas indígenas aqui no Brasil: o Centro de Tradições Nativas Nowa Cumig. Fundado no Rio de Janeiro, em 2013, o Centro recebe lideranças, pajés e estudiosos de todas as tradições, oferece cursos, promove cerimônias e difunde os ensinamentos ancestrais, sobretudo das mulheres e anciãs Ojibway.

 

Legado em forma de música

 

Há quatro anos ela não retorna às reservas canadenses. Adoraria, mas a agenda não tem permitido. Além dos compromissos no Nowa Cumig, Athamis dá aulas e palestras mundo afora sobre tradições nativas. Tornou-se uma referência. Mantém cursos regulares na Bélgica e na França, onde deu mais um passo importante no ano passado ao gravar o CD Gratitude. Com 11 canções cerimoniais Ojibway – de agradecimento, cura e empoderamento –, o CD é uma homenagem a seus alunos e à tradição que a acolheu como filha há pouco mais de duas décadas. O lançamento no Brasil será nesta segunda (5 de junho), na sede do MIR – Movimento Inter-religioso do Rio de Janeiro. O evento começa às 19hs, mas vale à pena chegar mais cedo. O MIR comemora 25 anos na ocasião e programou uma série de atividades interessantes.

 


SAIBA MAIS

 

MIR – Movimento Inter Religioso do Rio de Janeiro

Rua do Russel, 76 – Glória (próximo à saída do metrô)

 

Centro de Tradições Nativas Nowa Cumig

Rua Tobias do Amaral, 104 – Cosme Velho

Tel: (21) 2556-1380


 

 









COPYRIGHT 2017 REVISTA ALMA
%d blogueiros gostam disto: